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Danço na terra em que piso

Renata Felinto

(São Paulo, Brasil, 1978)

Nessa performance realizada pelas ruas da cidade de São Paulo/ Brasil e que rememoram vivências diversas marcadas na existência e conformação humana da artista visual, seu corpo de mulher negra brasileira se reconecta às suas raízes, aos seus e às suas que vieram antes, isso por meio da dança.

 

Considerando que na África Ocidental, de onde foram desterradas milhões de pessoas entre os séculos XVI e XIX para realização de trabalhos forçados nas colônias americanas, estão entranhadas nas terras as profundas ramificações da constituição existencial dessas pessoas. Ainda que os violentos processos de desterro e europeização as tenham tentado subtrair de nossas biografias.

Nestas estruturas sociais de África Ocidental, a espiritualidade ocupava, e em alguns lugares ainda ocupa, a centralidade de cerimônias e de rituais que se referem à manutenção do equilíbrio da vida. Assim, as efemérides que se propõem a demarcar a vida e a morte; o preparo do solo e a colheita; a glorificação de reis e rainhas e a reverência às suas existências no mundo invisível; dentre outras, sinalizam a importância dos ciclos que organizam essas sociedades e que, muitas vezes, são demarcados pela dança e pela música como elementos de mediação de fundamental importância para o sucesso dessas reconexões.

Dessa maneira, no contexto de espalhamento dos povos e etnias da África Ocidental para as Américas e, especificamente para o Brasil, a dança é o lugar de religamento numa conceituação que toma a forma de linha vertical, ou eixo, que liga o que e quem está abaixo da terra, onde se pisa e sobre quem se pisa num sentido de pessoa-semente, com quem está acima dela, e que, por consequência, é continuidade.

A dança ativa e reverencia as memórias e vivências positivas das pessoas que vieram antes de nós. Ela nos reconecta pelos pés que repisam os passos e caminhos da vida, de luta, de resistência, de amor, de afeto, de força em terras nas quais existe racismo, sexismo, machismo. Recorda-nos de nosso propósito que é ancestral e superior às brutalidades e selvagerias impingidas a nós por aqueles que se autodenominaram povos civilizadores. Ela nos reconecta relembrando-nos de celebrar o respirar, o transpirar, o pulsar com liberdade e alegria. Dancemos na terra em que pisamos.

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